WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O galho é apoio. As asas são minhas.

 

Despertei hoje pensando nos pássaros. Mais precisamente, em uma coisa que nunca lhes perguntei, mas que a natureza parece responder todos os dias: como conseguem pousar tão tranquilamente em galhos que podem se partir?

 

Fiquei imaginando se, antes de pousar, um pássaro se preocupa com a resistência da madeira, com a força do vento ou com a possibilidade de aquele apoio não suportar seu peso. E então me ocorreu algo simples, mas profundamente revelador: o pássaro não precisa confiar inteiramente no galho. Ele confia nas próprias asas.

 

Talvez esteja aí uma das grandes diferenças entre a maneira como os pássaros e nós atravessamos a vida.

 

Nós passamos muito tempo procurando galhos que não se quebrem. Buscamos caminhos seguros, escolhas sem arrependimentos, mudanças que não nos obriguem a abrir mão de nenhuma certeza. Queremos experimentar o novo, mas sem perder o conforto do conhecido. Desejamos outros horizontes, desde que alguém nos garanta, antecipadamente, que valerá a pena alcançá-los.

 

E assim vamos adiando decisões, esperando que a vida nos ofereça uma segurança que não faz parte de sua natureza.

 

É claro que precisamos pensar, ponderar, compreender os riscos. A prudência é uma virtude. Mas existe um ponto em que o excesso de preparação deixa de ser cuidado e começa a ser medo. Um momento em que continuar esperando não nos torna mais preparados, apenas nos mantém parados.

 

E o mais curioso é que, enquanto procuramos garantias para viver, a vida continua acontecendo, indiferente às nossas hesitações.

 

Penso nisso também porque minha própria história tem muitos recomeços.

 

Já mudei de direção algumas vezes. Já apostei em caminhos que não me levaram aonde imaginava. Já vi projetos perderem o sentido, certezas se desfazerem e galhos que pareciam firmes se partirem sob meus pés.

 

E caí. Caí outras tantas vezes.

 

Mas, olhando para trás, percebo que nenhuma dessas quedas me devolveu exatamente ao lugar de onde parti. Sempre ficou alguma coisa. Uma compreensão mais profunda, uma sensibilidade diferente, uma maneira nova de enxergar o mundo e, principalmente, de enxergar a mim mesmo.

 

Hoje, o que levo como ingrediente para os novos voos não é a ilusão de que tudo dará certo. É o repertório que as tentativas, os acertos e, sobretudo, os erros me proporcionaram.

 

Há conhecimentos que nenhum conselho consegue transmitir. Precisamos atravessar certas experiências para compreender o que elas têm a nos ensinar. E, muitas vezes, aquilo que parecia uma perda acaba se revelando parte importante do que nos tornamos.

 

Uma das convicções que mais me ajudaram a seguir foi compreender que, se alguma coisa desse errado, eu não acabaria junto com o erro.

 

Parece simples, mas há uma liberdade imensa nessa descoberta.

 

Uma escolha pode dar errado sem me transformar em um fracasso. Um sonho pode não se realizar sem que isso diminua a legitimidade de tê-lo sonhado. Um resultado indesejado não tem o direito de reescrever quem eu fui, quem eu sou ou aquilo que ainda posso ser.

 

Não sou apenas o que consegui construir. Sou também o que aprendi quando precisei reconstruir. Sou as decisões que tomei, as que precisei rever, os caminhos que percorri e aqueles dos quais tive coragem de voltar.

 

E, se hoje me sinto mais preparado para novos voos, não é porque tenha eliminado os riscos, mas porque já conheço um pouco melhor a minha capacidade de enfrentá-los.

 

Isso mudou minha relação com o futuro.

 

Continuo fazendo planos, avaliando possibilidades, procurando bons lugares para pousar. Mas já não espero encontrar um galho tão firme que me dispense de confiar nas minhas asas.

 

Lembro-me, então, dos versos de Mario Quintana: "Eles passarão... Eu passarinho!"

 

Sempre gostei da leveza e da força que convivem nessas poucas palavras.

 

Os versos fazem parte de um pequeno poema em que Quintana se refere àqueles que estão atravancando seu caminho, para então concluir, com uma simplicidade genial, que eles passarão, enquanto ele, passarinho, seguirá seu voo.

 

E gosto ainda mais de pensar que esses que atravancam o caminho não precisam ser pessoas. Podem ser os obstáculos, as circunstâncias desfavoráveis, os planos interrompidos, os medos que carregamos, as oportunidades que não prosperaram. Podem ser, simplesmente, os galhos que se partiram quando acreditávamos estar seguros.

 

Eles passarão. Ou perderão, com o tempo, o poder de nos impedir de seguir.

 

E eu, passarinho.

 

Não porque tenha aprendido a viver sem medo, mas porque já não quero que o medo decida até onde posso chegar. Não porque desconheça a dor de uma queda, mas porque sei que ela não precisa ser maior do que a vontade de continuar.

 

Há algo profundamente bonito em chegar a uma fase da vida em que já não precisamos provar que somos invencíveis. Basta reconhecer que somos capazes de recomeçar.

 

E isso não nos torna imprudentes. Torna-nos mais livres.

 

Livres para escolher sem exigir certezas absolutas. Para mudar de direção sem tratar o passado como desperdício. Para compreender que uma experiência pode ter valido a pena mesmo quando seu desfecho foi diferente do que desejávamos.

 

Hoje, quando penso nos pássaros que me visitaram o pensamento ao despertar, percebo que a verdadeira segurança nunca esteve na promessa de que o galho permaneceria inteiro.

 

Estava na possibilidade de abrir as asas.

 

E é assim que desejo continuar vivendo: com a serenidade de quem aprendeu com o caminho, a coragem de quem ainda tem sonhos e a disposição de quem sabe que a vida não termina onde uma tentativa falha.

 

Ainda há muito céu pela frente. Há paisagens que não conheço, alegrias que não experimentei, encontros que não aconteceram e versões de mim que ainda estão por nascer.

 

E quero estar disponível para tudo isso.

 

Se encontrar um galho firme, que eu saiba descansar e apreciar a paisagem. Se ele se partir, que eu não confunda a perda do apoio com a perda da minha capacidade de voar.

 

Porque, depois de tantos caminhos, recomeços e aprendizados, há uma certeza que hoje carrego comigo:

 

O galho é apoio. As asas são minhas.

 

E o céu, felizmente, continua imenso.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 23/10/2026
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