WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
SER AVÔ...
é descobrir, nos olhos de uma criança, uma beleza que talvez eu não tenha sabido contemplar por inteiro quando fui pai. Não por falta de amor, mas porque a vida, com suas urgências e responsabilidades, tantas vezes me fez passar depressa pelos instantes que mereciam eternidade.
Hoje compreendo que, enquanto me preocupava em construir o futuro dos meus filhos, parte da beleza do presente deles escapava silenciosamente de minhas mãos.
Meus netos me ensinaram algo que a vida inteira tentou me dizer: o tempo não vale pelo que nele realizamos, mas pelo que somos capazes de sentir enquanto ele passa.
Com eles, aprendi a demorar o olhar, a escutar o que ainda não sabem dizer, a encontrar grandeza nas coisas pequenas. Descobri que uma pequena mão segurando a nossa pode abraçar a alma inteira, e que não existe pressa quando o amor nos pede para ficar. Há instantes tão singelos que parecem nada diante do mundo, mas que, dentro de nós, se tornam eternidade.
Aprendi também que esse amor não precisa esperar pelo primeiro encontro. Um neto, quando nasce, é uma imensidão que chega aos nossos braços; quando ainda está sendo gestado, é o infinito que já encontrou morada em nosso coração. Menino ou menina, cada qual traz o mistério de uma existência única, um mundo inteiro por descobrir. E cada um, à sua maneira, desperta em mim um amor que não se divide: multiplica-se.
Talvez a maior transformação que meus netos tenham provocado em mim seja esta: antes, eu contava os anos pelo que ainda desejava realizar; agora, conto-os também pelo que ainda desejo presenciar.
Quero viver mais. Mas, sobretudo, quero viver melhor.
Quero estar presente quando descobrirem suas próprias forças, quando vencerem seus pequenos medos, quando a vida lhes oferecer alegrias e quando, inevitavelmente, lhes trouxer alguma tristeza. Quero acompanhar seus passos sem escolher seus caminhos. Quero ser presença sem ser limite, conselho sem ser imposição, abrigo sem impedir o voo.
E, se a vida me conceder esse privilégio, quero envelhecer vendo-os crescer.
Há nisso uma delicada contradição: quanto mais eles crescem, mais percebo o tempo que me resta. Mas, em vez de tristeza, essa consciência desperta em mim uma gratidão profunda. Porque meus netos me fizeram desejar o amanhã com a mesma intensidade com que aprendi a valorizar o hoje.
Também me fizeram olhar para trás com mais compreensão. Não posso voltar à infância dos meus filhos, nem recuperar os instantes que a vida levou. Mas posso reconhecer que o amor de um pai, tantas vezes ocupado em proteger e prover, nem sempre encontra a serenidade necessária para simplesmente contemplar.
Hoje, como avô, já não tenho tanto a provar ao mundo. Posso apenas estar. E descubro, com uma emoção que não sabia existir, que estar verdadeiramente presente talvez seja uma das formas mais completas de amar.
Sei que não poderei acompanhá-los por todos os caminhos. Mas desejo deixar em suas almas alguma lembrança que sobreviva à minha ausência: uma história contada sem pressa, uma brincadeira, um gesto de carinho, a memória de um abraço onde sempre coube o mundo.
E, quando um dia pensarem em mim, espero que não se lembrem tanto do que fiz ou conquistei, mas da felicidade que senti por tê-los em minha vida.
Porque meus netos não me devolveram o tempo que passou. Deram-me algo ainda mais precioso: uma razão para amar profundamente o tempo que me resta.
Talvez seja essa a mais doce sabedoria da maturidade: descobrir que, mesmo quando os anos nos aproximam do fim de tantas coisas, o amor ainda é capaz de nos oferecer novos começos.
Ser avô, afinal, é descobrir que a vida,
quando parecia começar a entardecer,
ainda guardava para nós
a mais bonita de suas manhãs.