WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
POUCO MAIS DA METADE DOS VOTOS VÁLIDOS ESCOLHEU MAIS DO MESMO. RESTA A FORÇA DO TRABALHO, DAS IDEIAS E DE QUEM NÃO DESISTE DE PROSPERAR.
O resultado das eleições de 2026 deixa uma constatação amarga: em 4 de outubro, o Brasil elegeu um Congresso majoritariamente conservador. Em 25 de outubro, reconduziu Lula e o Partido dos Trabalhadores ao comando do Executivo por mais quatro anos.
É uma discrepância política diametral. Um Congresso eleito sob uma orientação predominantemente conservadora e um governo reeleito com um projeto de maior protagonismo estatal. Duas visões de país que caminham em direções distintas, obrigadas a conviver em uma sociedade já profundamente dividida.
E, no centro dessa contradição, está uma das maiores distorções do nosso sistema eleitoral: a reeleição.
É preciso questionar duramente um modelo no qual o desafiante enfrenta não apenas um candidato, mas alguém que já ocupa o poder, administra o orçamento, dispõe da visibilidade institucional e pode colher dividendos políticos das ações do próprio governo.
Não há igualdade material de condições quando um candidato precisa conquistar o poder e o outro disputa para conservá-lo enquanto exerce as prerrogativas do cargo. A legitimidade das urnas não elimina esse desequilíbrio estrutural, nem deveria encerrar a discussão sobre seus efeitos na democracia.
Lula já associou a derrota de quem governa à incompetência. Mas a verdadeira questão não é competência ou incompetência. É a enorme vantagem de quem disputa a própria continuidade a partir da posição privilegiada de governante.
E assim seguimos. Mais quatro anos de polarização, de insegurança quanto aos rumos econômicos, de conflitos entre projetos políticos antagônicos e de incertezas para quem precisa tomar decisões, investir e assumir riscos.
Elegemos a continuidade. Mais do mesmo. E, com ela, permanece a apreensão de quem enxerga no crescimento da presença estatal, na complexidade tributária e na instabilidade das regras obstáculos à liberdade de produzir.
Para o empreendedor brasileiro, essa realidade tem consequências concretas. Não existe pausa na cobrança de impostos, nas obrigações burocráticas, nos custos trabalhistas, nos compromissos financeiros ou nos riscos de manter uma atividade econômica. Enquanto a política disputa o controle dos recursos públicos, quem produz precisa continuar encontrando maneiras de sustentar sua atividade.
É profundamente frustrante viver em um país no qual empreender exige não apenas criatividade, competência e disposição para o trabalho, mas também uma resistência permanente diante de um sistema tributário pesado, complexo e frequentemente hostil à iniciativa privada.
O Estado arrecada antes mesmo de muitos negócios conseguirem prosperar. Exige, fiscaliza, regulamenta e penaliza. E quem empreende precisa sobreviver a tudo isso antes de conseguir desfrutar plenamente dos frutos do próprio esforço.
Não se trata de negar a necessidade dos tributos ou das instituições públicas. Trata-se de questionar um sistema em que o peso das exigências estatais pode sufocar justamente aqueles que sustentam a atividade econômica.
E talvez seja essa a maior tristeza: perceber que, depois de mais uma eleição, continuaremos submetidos às mesmas incertezas, às mesmas disputas e à sensação de que o esforço individual precisa superar obstáculos que jamais deveriam ser tão grandes.
Mas tristeza não pode significar rendição.
A nossa resistência está na capacidade de continuar produzindo, criando, inovando e prosperando, apesar das dificuldades impostas pelo ambiente político e tributário.
Resistir é preservar a independência. É não confundir respeito às instituições com submissão intelectual aos governantes. É cumprir as obrigações legais sem aceitar passivamente o desperdício dos recursos arrecadados da sociedade. É exigir responsabilidade de quem administra aquilo que foi retirado do trabalho de milhões de brasileiros e brasileiras.
Nenhum resultado eleitoral representa um cheque em branco para o governo. E continuar trabalhando jamais significará concordar com a maneira como utilizam o dinheiro que arrecadam de nós.
O empreendedorismo brasileiro precisa continuar encontrando sua força na resiliência de quem transforma dificuldades em soluções, ideias em negócios e trabalho em oportunidades. Não na expectativa de favores do Estado, mas na capacidade de construir caminhos próprios.
Que nossa resposta a esse cenário seja trabalhar com ainda mais inteligência, proteger nossa independência, exercer nossos direitos, questionar os excessos e reduzir, sempre que possível e dentro da lei, nossa dependência das estruturas governamentais.
Não devemos ao governo nossa criatividade, nossa coragem, nosso talento ou nossa capacidade de realização. Devemos cumprir a lei e nossas obrigações. Nada além disso exige concordância política, gratidão ou submissão.
Se ainda existe algum otimismo diante de mais quatro anos de incertezas, ele não nasce dos palácios, dos discursos ou das promessas daqueles que disputam a permanência no poder.
Nasce de quem acorda cedo, assume riscos, paga suas contas, enfrenta a burocracia, suporta a carga tributária e, mesmo assim, encontra forças para continuar.
Que a política siga seu curso institucional. Nós seguiremos com aquilo que verdadeiramente sabemos fazer: trabalhar, pensar, criar, empreender e transformar nossa própria realidade.
Porque a esperança de quem produz não pode ficar refém de quem governa. Nossa força está no trabalho. Nossa resistência está na independência. E nossa liberdade está em construir, com criatividade e coragem, uma vida cada vez menos dependente do Estado, em tudo aquilo que a lei não nos obrigue a ele entregar.
O governo pode arrecadar parte do resultado do nosso trabalho. Mas não pode exigir nossa admiração, controlar nossas ideias ou se apropriar da nossa esperança.
O poder passa. A capacidade de criar, trabalhar e recomeçar permanece.