WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A ROSA IMPERECÍVEL DA MINHA MEMÓRIA
Hoje me deparei com uma frase de Adélia Prado que, de tão bonita, me fez interromper o dia e visitar, em silêncio, alguns lugares da alma:
“O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.”
Fiquei pensando nisso. Pensando em quem, afinal, eu amo com a memória. Não com essa memória distraída, que guarda datas, nomes e acontecimentos, mas com aquela outra, mais funda, que mora num lugar onde o tempo não entra, onde as ausências não conseguem apagar as presenças e onde certos afetos permanecem acesos, mesmo quando a vida muda de estação.
Descobri que não são muitas as pessoas que habitam esse lugar em mim. Mas são suficientes para que eu carregue, dentro do peito, algumas eternidades.
Meus pais, certamente. Com tudo que me deram, com aquilo que disseram e, sobretudo, com aquilo que nunca precisaram dizer. Meus filhos, que são partes de mim caminhando pelo mundo, levando em seus passos alguma coisa dos meus sonhos. Minhas noras, que a vida trouxe pelos caminhos do amor e que o coração acolheu como novas filhas. Meus netos, essas pequenas maravilhas que fazem a vida florescer novamente, como se Deus, generoso, nos permitisse experimentar a infância uma segunda vez, agora com a ternura de quem já compreendeu a brevidade das coisas.
Talvez outros poucos. Porque a eternidade do coração, ao contrário do mundo, não se mede pela quantidade de pessoas que nele entram, mas pela profundidade daquelas que ali permanecem.
E, entre essas eternidades, existe uma que tem nome de mulher.
Diva.
E é dela que hoje quero dizer.
Não sei exatamente em que momento uma pessoa deixa de ser apenas alguém que encontramos na vida e passa a fazer parte daquilo que somos. Talvez não exista um instante preciso. Talvez aconteça devagar, como a luz que entra pela janela antes de percebermos que amanheceu. Um gesto, uma palavra, um olhar, um sorriso. Depois outro. E outro. Até que, sem pedir licença, aquela pessoa já esteja morando em nós.
Com Diva, há essa delicada impressão de que a beleza encontrou uma maneira humana de existir.
E não falo apenas da beleza que os olhos alcançam, embora haja nela algo que faz os olhos demorarem como quem contempla uma flor e se esquece, por um instante, de que o mundo tem pressa.
Digo de outra beleza. Daquela que não se explica inteiramente. Que não depende da juventude, da perfeição ou das circunstâncias. Uma beleza que parece vir de dentro, como a claridade das estrelas, e que permanece mesmo depois que fechamos os olhos.
Diva pertence, para mim, a essa rara geografia do sentimento.
Há mais de três décadas caminhamos próximos, dividindo não apenas os dias, mas a própria aventura de existir. Temos rido juntos, chorado juntos, atravessado as dores e celebrado as alegrias de sermos exatamente aquilo que somos. E talvez seja essa a beleza mais verdadeira de nossa história: não a de um amor preservado à distância, protegido das imperfeições da vida, mas a de um sentimento que conhece o cotidiano, atravessa as estações, aprende com os desencontros e se renova nos encontros.
Um amor que não ficou guardado no passado, porque continua vivendo no presente e, com a graça de Deus, seguirá florescendo nos dias que ainda nos esperam.
E, ao pensar nela, é impossível não ouvir, em algum recanto da alma, a melodia de Rosa, de Pixinguinha, eternizada na voz de Orlando Silva. Aquela canção que parece ter sido escrita não apenas para uma mulher, mas para a própria ideia de beleza que o amor inventa quando já não encontra palavras suficientes para se declarar.
Há em Rosa uma devoção quase sagrada, um deslumbramento diante do feminino, como se amar fosse também reconhecer, numa criatura humana, um pequeno vestígio do divino.
É assim que, por vezes, penso em Diva.
Como se a natureza, em um de seus momentos de inspiração, tivesse reunido a delicadeza de uma pétala, a serenidade de uma tarde luminosa, o perfume discreto das flores que não precisam anunciar sua presença e aquela graça inexplicável que faz certas pessoas serem belas até no silêncio.
Mas Diva não é uma estátua, dessas que a perfeição condena à imobilidade. É mulher. E talvez seja justamente aí que resida seu encanto maior. Na humanidade de seus gestos, na verdade de suas imperfeições, na singularidade de sua maneira de existir. Naquilo que a faz ser ela, e nenhuma outra.
Porque o amor que amadurece aprende uma coisa preciosa: não é a perfeição que torna alguém inesquecível. É a sua verdade.
E há algo de profundamente comovente em perceber que, entre tantas pessoas que atravessam nossos dias, algumas permanecem em nós com a nitidez de uma presença que o tempo não consegue envelhecer. Sobretudo quando essa presença continua ao nosso lado, partilhando a vida, renovando a cada dia as razões pelas quais se tornou tão essencial.
Diva é uma dessas presenças.
Não preciso fechar os olhos para encontrá-la. Ela está nas conversas, nos risos, nas preocupações, nos pequenos acontecimentos que, somados, compõem a grandeza de uma existência compartilhada. Às vezes, aparece também numa música, numa lembrança inesperada, no sossego de uma manhã ou na beleza de alguma coisa que, sem razão aparente, me faz pensar nela, mesmo quando está por perto.
É curioso como funciona o coração. Há pessoas com quem convivemos durante anos e que, aos poucos, se tornam apenas retratos desbotados. E há outras que a memória guarda com um cuidado tão amoroso que nem mesmo a passagem do tempo consegue lhes diminuir a luz. Mais extraordinário ainda é quando a vida nos permite continuar ao lado de alguém assim, acrescentando novas lembranças às antigas, fazendo do presente uma memória que já nasce destinada à eternidade.
Talvez seja isso que Adélia Prado tenha alcançado com tão poucas palavras: a memória, quando ama verdadeiramente, não arquiva. Ela acolhe. Não conserva apenas o que aconteceu. Conserva aquilo que continua acontecendo dentro de nós.
E Diva continua acontecendo em mim.
Não como uma lembrança imóvel, presa a um passado que já se foi, mas como uma presença que acompanha a vida e que, de alguma maneira misteriosa, torna mais belo o simples fato de estarmos vivos.
Não sei se existe declaração de amor mais profunda do que essa.
Dizer a alguém que a amamos hoje é bonito. Prometer que a amaremos amanhã é comovente. Mas reconhecer que essa pessoa já pertence à nossa memória imperecível, enquanto seguimos juntos construindo novas histórias, talvez seja uma das formas mais delicadas de dizer que ela ultrapassou as fronteiras do tempo.
Porque o tempo, sabemos, é senhor de quase tudo. Modifica os rostos, transforma os caminhos, altera os destinos, desfaz certezas. Leva consigo a primavera das coisas e nos ensina, muitas vezes sem delicadeza, que nada permanece exatamente como era.
Mas há algo sobre o qual ele não exerce domínio absoluto: aquilo que o amor tornou essencial.
E Diva, para mim, pertence a essa dimensão.
Não quero aprisioná-la em palavras grandiosas, nem cobri-la de adjetivos que, por mais belos, jamais seriam suficientes. Prefiro pensá-la como se pensa uma rosa: não pela necessidade de explicar sua beleza, mas pelo privilégio de tê-la encontrado e de continuar, a cada novo dia, contemplando seu florescer.
Uma rosa não precisa saber que é admirada para continuar florescendo. Não exige testemunhas para espalhar seu perfume. Sua beleza simplesmente acontece.
Assim é Diva na minha memória. E assim é Diva na minha vida.
E talvez por isso a canção de Pixinguinha me comova tanto. Porque nela o amor parece ajoelhar-se diante da beleza, não por submissão, mas por assombro. Como se o coração, incapaz de compreender o milagre de sentir tanto, encontrasse na música a única maneira de agradecer.
Eu também agradeço.
Agradeço à vida por haver cruzado os nossos caminhos e, mais ainda, por permitir que continuem entrelaçados depois de tantos anos. Por tudo aquilo que sua existência despertou e continua despertando em mim. Pelos instantes que se tornaram lembranças, pelas lembranças que se transformaram em ternura e por essa ternura que, sem fazer ruído, encontrou um lugar definitivo na minha alma.
Agradeço pelos dias luminosos e também pelos difíceis, porque foram eles, juntos, que nos ensinaram que amar não é viver sem dores, mas encontrar, mesmo entre elas, razões para permanecer. E agradeço, sobretudo, porque nossa história ainda está sendo escrita.
Não sei o que a eternidade realmente significa. Talvez ninguém saiba. Talvez seja apenas uma palavra imensa que inventamos para nomear aquilo que não suportamos imaginar terminado.
Mas sei que existem pequenas eternidades possíveis.
A eternidade de uma voz que conhecemos tão bem e que ainda temos a felicidade de ouvir. De um sorriso que a lembrança devolve intacto e que o presente continua oferecendo. De um olhar que permanece luminoso mesmo quando os anos se acumulam. De um nome que, ao ser pronunciado, ainda desperta no peito uma doçura antiga e sempre nova.
Diva é uma dessas eternidades.
E, se um dia me perguntarem o que foi verdadeiramente belo na minha passagem por este mundo, talvez eu não fale de grandes acontecimentos, de conquistas ou de coisas que possuí. Talvez eu fale das pessoas que amei e continuo amando. Daquelas que fizeram e fazem de mim alguém mais sensível à beleza, mais atento à delicadeza, mais agradecido pelo mistério de estar vivo.
Falarei dos meus pais, dos meus filhos, das minhas noras que se tornaram filhas do coração, dos meus netos, dessas raízes e desses frutos que dão sentido à minha existência.
E, num lugar especial dessa conversa com a eternidade, falarei dela.
Da minha Diva.
Não porque tenha sido necessário que o mundo parasse para que eu a percebesse, mas porque, de alguma forma, o mundo ficou, fica e continuará mais bonito simplesmente porque ela existe nele.
E isso, para mim, já é muito. Talvez seja tudo.
Hoje, depois de encontrar Adélia Prado e de ouvir, dentro de mim, a rosa de Pixinguinha florescer em música, compreendo um pouco melhor a natureza de certos amores.
Há amores que pertencem aos encontros. Outros, aos sonhos. Alguns, à saudade. E há aqueles que, sem deixar de ser ternura, encanto e desejo de bem, se transformam numa espécie de patrimônio da alma.
Não precisam vencer o tempo, porque já não disputam com ele.
Não precisam de promessas, porque sua permanência não depende delas.
Não precisam sequer de palavras, embora às vezes, como hoje, as palavras insistam em nascer.
Diva, minha Diva...
Se eu pudesse lhe oferecer alguma coisa que não envelhecesse, não lhe daria ouro, nem flores, nem qualquer dessas belezas que o tempo, cedo ou tarde, acaba por recolher.
Eu lhe daria um lugar na minha memória.
Mas esse lugar você já tem.
E nele não há outono que lhe roube as pétalas, nem inverno que lhe apague o perfume. Nele, a sua beleza não precisa desafiar os anos, porque já pertence àquilo que os anos não conseguem levar.
E o mais bonito é que essa memória não vive apenas do que passou: ela continua sendo alimentada por sua presença, pelos nossos dias, pelas histórias que ainda construiremos, pelas alegrias que celebraremos e até pelas lágrimas que, se vierem, haveremos de enxugar juntos.
Talvez seja essa a minha maneira mais verdadeira de amá-la: não apenas com o coração, que pulsa, se inquieta e um dia se cala, mas com essa outra parte de mim, silenciosa e profunda, onde guardo o que a vida me deu e continua me dando de mais precioso.
E se a memória, como escreveu Adélia, é capaz de tornar eterno aquilo que ama, então posso dizer, com a serenidade de quem encontrou uma verdade que dispensa explicações: eu amo você com a memória!
Com a memória dos dias vividos, dos sentimentos despertados, das belezas percebidas e de tudo aquilo que, mesmo sem nome, ficou para sempre. Mas amo também com o presente, com a alegria de tê-la por perto, com a cumplicidade construída ao longo de mais de trinta anos e com a esperança serena dos amanhãs que ainda nos pertencem.
E quando a música terminar, quando a última nota de Rosa se perder no silêncio, quando as palavras desta prosa já não forem mais que uma lembrança, ainda haverá, em algum jardim secreto da minha alma, uma flor que não conhece o fim.
Uma flor com o seu nome.
E, enquanto houver em mim um lugar onde a memória possa amar, haverá também uma rosa florescendo.
A sua.
Imperecível.
Rosa (Orlando Silva): https://www.youtube.com/watch?v=cg6EHP-bPdo