WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Felicidade de Viver uma Vida que Não Passa em Vão

 

Nesta madrugada do primeiro domingo de novembro de 2026, Érico Verissimo me apareceu. Não em sonho, mas através de uma dessas verdades que atravessam o tempo e, de repente, encontram morada definitiva dentro de nós. Em Olhai os Lírios do Campo, escreveu: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”

 

Eu já sabia disso. Talvez não soubesse traduzir em palavras, mas há muito carregava essa certeza dentro de mim. Foi uma alegria especial encontrar, na sensibilidade de Verissimo, a definição tão precisa de algo que sempre senti: a minha felicidade não é uma promessa à espera de realização. É uma realidade que venho construindo, vivendo e renovando todos os dias.

 

Porque a minha felicidade não nasceu da ausência de tempestades, mas da coragem de atravessá-las. Não é filha da facilidade, mas do sentido que fui capaz de dar a cada experiência, inclusive às mais difíceis.

 

Profissionalmente, sonhei, projetei, implantei, construí, ousei. Conheci o entusiasmo das conquistas e a solidão dos fracassos. Vi projetos desmoronarem, caminhos se fecharem e certezas se desfazerem. Mas recomecei. E houve momentos em que não recomecei do zero, porque o zero ainda é um chão. Recomecei das cinzas. Fui fênix. E aprendi que a felicidade não exige uma vida sem quedas; exige uma alma que não renuncie à extraordinária aventura de se levantar. Cada renascimento acrescentou à minha existência não apenas novas conquistas, mas uma consciência mais profunda do valor de estar vivo.

 

E, na misteriosa e fascinante arte do encontro, encontrei minha Diva. Entre tantos caminhos possíveis, nossas histórias se cruzaram e escolheram caminhar juntas. Há encontros que parecem guardar uma sabedoria maior que o acaso, como se a vida, em sua silenciosa arquitetura, soubesse aproximar aqueles que haveriam de construir algo verdadeiramente belo. Com Diva, o amor ganhou a dimensão de uma obra compartilhada, feita de cumplicidade, descobertas, desafios e da alegria de transformar dois destinos em uma história comum.

 

Dessa história nasceu a nossa realização mais preciosa: a família que construímos. Três filhos, três netos, duas noras... e a vida continua se expandindo, generosa, em novos afetos, novas histórias, novas possibilidades. Há uma felicidade quase indescritível em perceber que aquilo que começou no encontro de duas pessoas se transformou em uma árvore de tantos ramos, flores e frutos. Nossos filhos são a expressão viva do amor que se fez continuidade; nossos netos são o futuro que nos visita com olhos de encantamento; nossas noras são novos laços que ampliam a beleza dessa construção. E essa família, que cresce e se reinventa, me ensina que o amor tem uma propriedade quase divina: quanto mais se multiplica, mais inteiro permanece.

 

Mas existe ainda outra dimensão da felicidade, talvez uma das mais profundas: aquela que ultrapassa os limites da nossa própria existência e se manifesta na vida dos outros.

 

Gosto de pensar que ninguém atravessa verdadeiramente o mundo sem irradiar alguma coisa de si. Somos, de certo modo, aquilo que despertamos nas pessoas que encontramos. Uma palavra que encoraja, um gesto que acolhe, uma oportunidade que oferecemos, uma confiança que ajudamos a restaurar, uma ideia que floresce em outra consciência. Há realizações que não levam nossa assinatura, mas carregam silenciosamente a nossa influência. E há uma felicidade singular em perceber que a nossa passagem pode tornar mais leve, mais esperançosa ou mais fecunda a caminhada de alguém.

 

Talvez seja essa uma das formas mais elevadas de realização humana: compreender que a felicidade não se esgota em nós; ela se irradia. Não é apenas aquilo que conquistamos, mas também aquilo que despertamos. Não é somente o bem que recebemos, mas o bem que fazemos circular. Uma existência ganha grandeza quando deixa de ser apenas uma história individual e passa a participar, ainda que discretamente, da construção de outras histórias.

 

É por isso que a reflexão de Verissimo me toca tão profundamente. Porque ela retira a felicidade do território das circunstâncias e a coloca no universo do significado. Ser feliz não é ter tudo, nem vencer sempre, nem desconhecer a dor. É saber que nossas alegrias, nossos esforços, nossas lutas e até nossas cicatrizes compõem uma existência que tem propósito.

 

A felicidade, afinal, não é o prêmio que recebemos depois de viver. É a consciência luminosa de que estamos vivendo com sentido.

 

E essa consciência não me convida a olhar a vida como uma obra concluída. Ao contrário, desperta em mim uma vontade ainda maior de viver, de criar, de amar, de aprender, de realizar, de encontrar pessoas e de continuar espalhando, por onde eu passar, algo de bom, de belo e de verdadeiro.

 

Nesta madrugada de novembro, as palavras de Érico Verissimo não me trouxeram uma descoberta, mas uma confirmação. Deram nome a uma felicidade que já habitava em mim, que se alimenta de tudo o que construí e, sobretudo, de tudo o que ainda desejo construir.

 

Porque minha história não é apenas o que ficou para trás. É também o que pulsa agora, o que floresce ao meu redor e o que ainda me espera adiante.

 

Sou feliz pelo que construí, pelo amor que compartilho, pelas vidas que ajudo a tocar e pela extraordinária possibilidade de continuar fazendo tudo isso.

 

E talvez esteja aí a mais bela dimensão da felicidade: saber que a vida já valeu imensamente a pena e, ainda assim, despertar a cada manhã com a alegria de quem sente que o melhor dela continua sendo escrito.

 

Porque não me basta ter vivido uma vida com sentido. Quero continuar dando sentido à vida, todos os dias.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 01/11/2026
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