WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Geometria do Êxtase
Éramos duas linhas paralelas,
próximas o bastante para sentir o calor,
distantes o suficiente para preservar o silêncio.
Havia entre nós a geometria da contenção,
a disciplina dos corpos imóveis,
a aparente serenidade de quem ainda governa
os próprios desejos.
Até que nossas mãos se encontraram.
Foi um toque breve, quase inocente,
mas há delicadezas que desobedecem à razão.
E o que era repouso tornou-se expectativa,
o que era silêncio começou a respirar,
e a distância, antes tão obediente,
perdeu lentamente sua razão de existir.
Meus dedos reconheceram em sua pele
uma linguagem anterior às palavras.
E você, que parecia feita de calma,
começou a revelar a intensidade
que guardava sob a superfície.
Lembrei-me então de “erótico Neruda”:
“Fera comovida, você parece uma rosa.”
E compreendi o mistério.
Havia em você a delicadeza das pétalas,
a beleza que não precisa anunciar-se,
a sensibilidade de quem sente profundamente.
Mas havia também a fera,
a força silenciosa dos instintos,
a natureza altiva de quem escolhe se entregar,
a liberdade de quem permanece inteira no desejo.
E era justamente essa contradição
que tornava tão preciosa a sua entrega.
Porque você não cedia à força,
nem se deixava conduzir pela pressa.
Era no percurso paciente das minhas mãos
que suas reservas se desfaziam,
não como rendição,
mas como expressão livre do próprio desejo.
Então nossas linhas começaram a se inclinar.
Primeiro, quase imperceptivelmente,
como dois destinos que hesitam diante do encontro.
Depois, com a naturalidade do inevitável,
até que deixamos de ser paralelos
e nos tornamos linhas concorrentes,
convergindo para um ponto
onde já não havia distância
entre o desejo e sua expressão.
E ali, quando o encontro já nos pertencia,
descobri uma dúvida que ainda me acompanha:
Não sabia o que mais me encantava,
se o prazer que nascia do encontro de nossas peles
ou o movimento que meus olhos acompanhavam,
as suaves mudanças de sua silhueta,
o desenho de suas curvas em movimento,
a maneira como seu corpo, sem nenhuma palavra,
revelava a intensidade do que sentia.
Porque havia uma beleza singular
em perceber suas pequenas mudanças:
o respirar que perdia a cadência,
os olhos que lentamente se fechavam,
o silêncio que se tornava mais profundo,
o corpo que, aos poucos,
deixava de obedecer à quietude.
Eu era, ao mesmo tempo,
parte daquilo que acontecia
e testemunha de seu mistério.
E talvez nada fosse mais íntimo
do que compreender que, naquele instante,
havia uma beleza em você
que nenhum outro olhar poderia alcançar.
A expressão que se desenhava em seu rosto,
o modo como seus olhos se fechavam,
o estremecer quase involuntário de seus lábios,
tudo se revelava apenas diante de mim.
Não porque aquela beleza me pertencesse,
mas porque somente a mim
você concedera o privilégio de contemplá-la.
Era uma intimidade sem testemunhas,
um segredo que seus gestos me confiavam,
uma parte de você que o mundo desconhecia
e que meus olhos tinham permissão de conhecer.
Por isso não tive pressa.
Quis permanecer na delicadeza do percurso,
acompanhar cada mudança de sua respiração,
sentir o instante exato
em que a fera já não precisava ocultar sua ternura
e você se permitia sentir sem reservas.
Até que veio o tremor.
Primeiro discreto, quase imperceptível.
Depois inteiro, incontornável,
como se tudo o que fora contido
encontrasse, enfim, sua expressão.
Seus dedos procuraram os meus
e os apertaram num silencioso pedido de pausa.
O tremor alcançara seu limite,
e o prazer, tão intenso naquele instante,
parecia já não encontrar espaço
para crescer sem transbordar.
Sua respiração perdeu o compasso,
seus olhos permaneceram fechados,
e por alguns segundos
tudo o que você desejava
era que o tempo lhe permitisse sentir
aquilo que as palavras não poderiam descrever.
Somente então pensei em mim.
Até aquele momento,
meu prazer estivera também em contemplar o seu.
Mas agora, enquanto sua respiração
reencontrava lentamente a serenidade,
você se voltou para mim
com a mesma delicadeza que antes recebera.
E você, com a delicadeza de quem conhece
os segredos e os tempos do próprio corpo,
acrescentou às nossas peles a umidade necessária
para que o desejo encontrasse seu caminho.
E havia nessa escolha uma ternura particular:
a de quem não deixa ao acaso
a beleza do prazer que deseja oferecer.
E então, pouco depois, também tremi.
Não como quem conquista,
mas como quem finalmente se deixa alcançar.
Não como quem encerra um caminho,
mas como quem descobre
a profundidade de um encontro.
E, quando o movimento cedeu lugar ao repouso,
nossos corpos encontraram outra geometria.
Já não éramos linhas paralelas,
nem concorrentes em busca de um ponto.
Éramos agora linhas perpendiculares,
serenamente dispostas uma sobre a outra,
unidas na quietude de um ângulo exato,
como se o desejo, depois de percorrer tantas direções,
houvesse encontrado ali sua forma de permanecer.
Suas mãos ainda repousavam nas minhas,
e havia em seus olhos
a mesma delicadeza do primeiro toque.
Foi então que compreendi
o mais belo de todos os paradoxos:
Você, que trazia na alma
a força de quem não se deixa dominar,
encontrava na entrega a expressão de sua liberdade.
E, depois de estremecer
sob a intensidade do próprio desejo,
conservava no mais leve toque
a delicadeza de quem ainda se surpreende ao sentir.
Como se a intensidade não pudesse ferir sua delicadeza.
Como se o fogo, em vez de consumir a rosa,
apenas lhe revelasse o perfume.
Como se a intimidade, em vez de nos acostumar,
renovasse a cada encontro o primeiro encanto.
Como se nossos corpos, apesar de tão conhecidos,
ainda guardassem a capacidade de surpreender um ao outro.
E foi assim, com você já adormecida,
serena na quietude do nosso repouso,
que compreendi, em silêncio,
que a beleza não estava apenas
na intensidade com que nos desejávamos,
mas no fato de que, mesmo depois de tantos encontros,
ainda conservávamos a delicadeza
de quem se toca pela primeira vez.