WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Prosa da Bênção
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
Essa frase, declamada por Vinicius de Moraes no inesquecível Samba da Bênção, me acompanha há muito tempo. Talvez porque, à medida que a vida avança, compreendo que sua grandeza não está apenas nos caminhos que percorro, mas, sobretudo, nas almas que encontro ao longo da travessia.
E, por certo, quando penso nela e procuro palavrar o que sinto, é aos encontros que primeiro rendo minhas homenagens. Louvo os encontros que me trouxeram pessoas capazes de transformar a banalidade dos dias em acontecimentos da alma; aqueles encontros que não se explicam apenas pelas circunstâncias, porque parecem obedecer a uma delicada sabedoria do destino. Há pessoas que simplesmente passam por nossa história. Outras, porém, permanecem de tal maneira que já não sabemos contar determinados capítulos da vida sem reconhecer nelas uma presença essencial.
Hoje celebro um desses encontros. E, mais do que isso, celebro a vida de uma amiga querida. Amiga do cotidiano, das lutas que nos aproximaram, das convicções que nos fizeram caminhar lado a lado e dos sonhos coletivos que aprendemos a sonhar juntos. Não de todos os sonhos que habitam minha existência, porque cada alma guarda seus próprios horizontes, mas daqueles que, por uma feliz convergência de esperanças, tornaram-se nossos. Sonhos que ultrapassam o interesse individual e encontram sentido na possibilidade de um mundo mais justo, mais humano e mais digno.
E é a você, minha amiga, que agora dirijo estas palavras. Porque há sentimentos que não devem permanecer na impessoalidade das reflexões. Há afetos que merecem ser pronunciados olhando, ainda que simbolicamente, nos olhos de quem os inspira.
E, se Vinicius de Moraes encontrou no Samba da Bênção a poesia necessária para celebrar a vida e seus encontros, permito-me, guardadas as distâncias entre a grandeza do poeta e a singeleza de minhas palavras, chamar esta homenagem de “Prosa da Bênção”. Não porque tenha a pretensão de alcançar a beleza de seus versos, mas porque também reconheço que certos encontros são bênçãos que a existência nos concede. E, quando a vida nos oferece uma amizade digna de gratidão, talvez a forma mais sincera de celebrá-la seja transformar em palavras aquilo que o coração aprendeu a reconhecer como dádiva.
E é sob essa inspiração que hoje lhe ofereço minha prosa, não como quem pretende dizer algo extraordinário, mas como quem reconhece o extraordinário na existência de alguém.
Sei que, nas ocasiões em que celebramos mais um aniversário, é comum desejar saúde, paz, felicidade, prosperidade, sucesso e muitos anos de vida. São votos legítimos, generosos e necessários. Mas, nesta minha Prosa da Bênção, quero que os desejos ultrapassem a habitual generosidade das felicitações e alcancem aquilo que nenhuma riqueza pode comprar, nenhum poder pode conceder e nenhum tempo deveria roubar.
Desejo, sobretudo, que você jamais perca a capacidade de se maravilhar com a existência. Que, mesmo depois das decepções, das ausências, das batalhas silenciosas e das inevitáveis asperezas do mundo, continue acreditando na beleza de viver de maneira extraordinária. Não pela grandiosidade das conquistas, mas pela nobreza dos gestos. Que você saiba ousar com leveza, caminhar com firmeza e poesia, buscar o invisível sem desprezar o que está diante dos olhos, acolher o possível com gratidão e, por que não, continuar desejando o impossível.
Sim, o impossível!
Porque acredito que há sonhos que a razão não alcança, esperanças que não cabem nas estreitas medidas da lógica e forças que não se deixam aprisionar por doutrinas ou explicações. Há um sopro sagrado que nos sustenta quando as pernas vacilam, quando os caminhos escurecem e quando até as palavras parecem insuficientes.
E desejo que essa presença divina jamais lhe falte. Não uma fé reduzida a fórmulas, convenções ou discursos, mas a experiência profunda do Eterno que habita o íntimo da existência. Deus, que nenhuma palavra consegue definir por inteiro, nenhuma forma pode conter e nenhum entendimento humano é capaz de esgotar. O indizível que nos move, que nos ergue, que nos chama para além de nossas próprias limitações.
Que seja n'Ele, minha amiga, o repouso de suas inquietações, a renovação de sua coragem e a morada daqueles impossíveis que somente a eternidade compreende. Que, quando suas forças parecerem pequenas diante da imensidão dos desafios, você encontre nessa presença sagrada a certeza de que nem tudo aquilo que nos sustenta precisa ser visto, explicado ou compreendido.
Quero também lhe desejar que nunca confunda a dureza do caminho com a ausência de sentido. Que as lutas não lhe roubem a ternura, que as responsabilidades não lhe sufoquem a poesia e que o passar dos anos não lhe diminua a disposição de recomeçar. Afinal, envelhecer é uma imposição do tempo; amadurecer sem perder o encantamento é uma conquista da alma.
E que a vida lhe conceda algo ainda mais raro do que a felicidade permanente: a sabedoria de reconhecer a beleza mesmo quando a felicidade não se apresenta. Porque viver não é estar continuamente em festa, mas conservar, até nas estações mais áridas, a capacidade de florescer.
Há, ainda, algo que nosso encontro me permite afirmar. Nossa amizade contraria uma dessas pequenas e pífias lógicas que, embora persistam em certos espíritos, jamais conseguiram alcançar a grandeza das relações humanas: a suposição de que não pode existir amizade sincera, profunda e desinteressada entre um homem e uma mulher.
Que pobreza de compreensão seria reduzir a amizade às fronteiras do gênero! Como se a afinidade entre duas almas precisasse necessariamente de outra explicação; como se o respeito, a admiração, a lealdade e a partilha de ideais não fossem, por si mesmos, fundamentos suficientemente nobres para sustentar um afeto verdadeiro.
E é justamente em nossa amizade que encontro uma bela resposta a essa estreiteza de pensamento. Porque reconheço em você uma presença que não precisa de definições extraordinárias para possuir extraordinário valor. Aprecio sua companhia, respeito sua individualidade, admiro sua caminhada e celebro, com alegria sincera, aquilo que a vida lhe permite conquistar.
A amizade, quando autêntica, não exige justificativas. Ela se reconhece na liberdade de ser, na confiança que dispensa provas, na presença que não reclama posse e na alegria genuína de testemunhar o florescimento do outro. É uma das mais belas expressões do amor humano, precisamente porque não pretende aprisionar aquilo que admira.
E talvez seja essa uma das lições mais delicadas que o tempo me oferece: nem todos os grandes amores da existência precisam ser romances. Alguns são amizades que se tornam patrimônio afetivo, abrigo de confiança e testemunho silencioso de que a vida, apesar de seus desencontros, continua sendo uma extraordinária arte de encontrar.
Por isso, neste dia, não celebro apenas a passagem de mais um ano. Celebro a singularidade de sua existência, a dignidade de sua caminhada e o privilégio de partilhar com você os dias comuns, as causas necessárias e algumas das esperanças que dão sentido à nossa passagem pelo mundo.
E, se comecei evocando Vinicius de Moraes, é porque desejo terminar reconhecendo que, entre tantos desencontros possíveis, a vida foi generosa ao permitir nosso encontro.
Essa mulher, cuja amizade honra minha caminhada, cuja presença engrandece o cotidiano e cuja existência hoje celebro com respeito, ternura e profunda admiração, tem um nome.
E essa amiga, que hoje recebe minha homenagem, que compartilha comigo lutas, cotidianos e sonhos que ousamos sonhar juntos, gosta de atender pelo nome de Ivani.
Feliz aniversário, Ivani!
Que Deus lhe conceda não apenas muitos anos de vida, mas, sobretudo, muita vida em cada um dos anos que ainda virão.
E que, quando o tempo houver levado consigo tantas coisas que hoje julgamos importantes, permaneça aquilo que realmente merece permanecer: a beleza dos encontros, a dignidade dos afetos e a certeza de que algumas pessoas são, elas próprias, uma forma de bênção.
Hoje, minha amiga, a bênção é a sua vida. E a gratidão, por nosso encontro, é minha.