WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Entre a arrogância de saber e a vaidade de ignorar

Uma crônica sobre a inteligência, a estupidez e a difícil elegância de permanecer em dúvida.

 

 

Outro dia, deparei-me com uma frase cuja autoria desconheço, mas cuja provocação me pareceu extraordinariamente atual:

“Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravagante.”

 

Desde então, venho pensando nessa curiosa tragédia das relações humanas: de um lado, aqueles que fazem da inteligência um pedestal; de outro, os que transformam a própria ignorância em espetáculo. Uns nos cansam pela soberba. Outros nos assustam pela convicção. E ambos, curiosamente, parecem sofrer da mesma enfermidade: a incapacidade de admitir que talvez não saibam tanto quanto imaginam.

 

A inteligência ostensiva tem algo de profundamente deselegante. Não porque o conhecimento deva esconder-se, mas porque a verdadeira sabedoria raramente precisa anunciar sua chegada. Há pessoas que não conversam: proferem sentenças. Não escutam: aguardam a oportunidade de corrigir. Não compartilham ideias: distribuem demonstrações de superioridade. Para elas, o pensamento deixou de ser uma ponte e tornou-se um trono.

 

Já a burrice extravagante possui uma característica ainda mais perturbadora: perdeu a vergonha de si mesma. Não se contenta em desconhecer; precisa proclamar. Não lhe basta estar equivocada; exige plateia, aplausos e, preferencialmente, seguidores.

 

Eis o retrato de nosso tempo.

 

Vivemos numa época em que a opinião adquiriu o prestígio do conhecimento, a convicção usurpou o lugar da reflexão e a velocidade das respostas passou a valer mais do que a profundidade das perguntas. Cada qual se julga guardião de uma verdade absoluta, senhor de uma razão incontestável e juiz de tudo aquilo que não compreende ou não lhe convém compreender. As divergências, antes oportunidades de reflexão, converteram-se em trincheiras; as ideias deixaram de ser examinadas por seu conteúdo para serem julgadas pela origem de quem as profere. Já não importa tanto o que se diz, mas de que lado se está.

 

E assim seguimos, divididos por paixões que se renovam, alimentando disputas cujos protagonistas se alternam, mas cujos vícios permanecem assustadoramente iguais. Há algo de melancólico em perceber que mudam os discursos, as bandeiras e os personagens, enquanto os velhos interesses continuam a escrever, quase sempre, o mesmo enredo. As redes sociais, por sua vez, converteram-se em tribunais sem processo, universidades sem estudo e púlpitos sem espiritualidade.

 

Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos demonstrado tamanha dificuldade em conviver com a dúvida.

 

Sócrates, na tradição filosófica que lhe atribui a consciência dos limites do próprio saber, permanece como um constrangimento para a modernidade. Afinal, reconhecer a própria ignorância exige uma grandeza que a vaidade contemporânea dificilmente tolera.

 

Há, contudo, algo que me inquieta ainda mais: a progressiva extinção da delicadeza intelectual. Aquela rara disposição de ouvir sem preparar imediatamente uma resposta, de discordar sem desprezar, de compreender antes de condenar. Parece que já não buscamos a verdade; buscamos a vitória. E, nessa disputa, até a razão se torna instrumento de vaidade.

 

Talvez a inteligência ostensiva e a burrice extravagante sejam apenas duas manifestações de uma mesma pobreza interior: a necessidade desesperada de parecer maior do que se é.

 

Quanto a mim, não desejo pertencer a nenhuma dessas confrarias.

 

Não ambiciono a superioridade dos que ostentam saber, tampouco a tranquilidade inconsequente dos que ignoram a própria ignorância. Busco algo menos ruidoso e, talvez por isso, mais difícil: a lucidez sem arrogância, a convicção sem fanatismo, a humildade sem submissão.

 

Quero conservar o direito de mudar de ideia sem sentir que traí a mim mesmo. Quero aprender com quem sabe mais, sem desprezar quem sabe menos. Quero cultivar dúvidas que me façam crescer, em vez de certezas que me aprisionem.

 

E, sobretudo, quero que o passar dos anos não transforme a experiência em arrogância, nem a maturidade em certezas inabaláveis, preservando em mim a rara capacidade de me surpreender, de aprender e de reconhecer que, por mais longa que seja a caminhada, sempre haverá horizontes que meus olhos ainda não alcançaram.

 

Porque, ao fim, talvez a verdadeira sabedoria não esteja em iluminar os outros com o brilho da própria inteligência, nem em disputar espaço com o espetáculo da estupidez.

 

Talvez esteja simplesmente em aprender a caminhar entre ambas, sem precisar fazer barulho, compreendendo que a luz mais nobre não é aquela que ofusca, mas aquela que permite enxergar.

 

E, se me for permitido escolher uma última ambição, que seja esta: não quero ter sempre razão. Quero ter sempre razões para continuar pensando.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 05/11/2026
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