WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A difícil arte de desaprender
Tenho andado inquieto. Provavelmente em razão dos rumos da nação que me foi berço, dos sinais que os dias nos oferecem e dessa estranha sensação de que a minha intuição já acena como certo aquilo que ainda é incerto. E essas incertezas, por si sós, já constituem motivo suficiente de desconforto. Há momentos em que o futuro parece anunciar-se antes mesmo de acontecer, e nem sempre seus presságios são tranquilizadores.
E esse é um tipo de inquietação que nem sempre encontra tradução nas palavras, mas que a minha Diva, com a sabedoria intuitiva dos afetos, costuma definir como um estado de “aperto no coração”.
E foi justamente essa sensação que me levou a perceber algo mais profundo: de aperto em aperto, entre as exigências da vida e as concessões que a existência me impôs, algumas das minhas boas emoções foram sendo silenciosamente encaixotadas. Umas, cuidadosamente dobradas, como se ainda esperassem a ocasião de voltar à luz; outras, talvez as mais autênticas, acabaram relegadas aos recantos da memória, sob o peso das desilusões, das renúncias e das sucessivas versões de mim que as circunstâncias exigiram. E assim, quase imperceptivelmente, fui permitindo que a vida me revestisse de tantas camadas que, por vezes, já não sei distinguir onde termina aquilo que aprendi a ser e onde começa aquilo que verdadeiramente sou.
É paradoxal, mas acontece: tantas vezes precisamos ser outros que acabamos deixando de ser nós mesmos. Aprendemos a sorrir quando gostaríamos de silenciar, a concordar quando a alma discorda, a esconder nossas delicadezas para sobreviver à aspereza dos dias. E, quando percebemos, já não sabemos se estamos vivendo ou apenas representando, com alguma competência, o personagem que as circunstâncias nos obrigaram a construir.
E foi nesse ambiente de inquietações que quase por acaso, se é que existem acasos quando a alma procura respostas, que encontrei um texto de Rubem Alves, publicado na Folha de S.Paulo, em 17 de maio de 2011, sob o título Esquecer para saber.
Nele, Rubem Alves evoca Alberto Caeiro, reproduzindo suas palavras:
“O essencial é saber ver - Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender...”
E, mais adiante:
“Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu...”
Fiquei pensando quantas tintas me cobrem. Quantas certezas não são minhas. Quantos sentimentos silenciei para não confrontar. Quantas vezes confundi maturidade com resignação, prudência com medo, compreensão com a dolorosa arte de aceitar o inaceitável.
E há algo especialmente triste nos tempos que vivemos. Nunca estivemos tão cercados de palavras e tão distantes da escuta. Nunca exibimos tanto nossas vidas e escondemos tão profundamente nossas verdades. Multiplicamos opiniões, mas empobrecemos a sensibilidade. Aprendemos a julgar antes de compreender, a responder antes de ouvir, a aparentar felicidade enquanto a existência, discretamente, perde o encanto.
Há uma espécie de cansaço moral pairando sobre os nossos dias. A delicadeza parece ingênua, a sinceridade tornou-se arriscada e a bondade, não raramente, é confundida com fraqueza. Vivemos um tempo em que parecer importa mais do que ser. E talvez a mais silenciosa das tragédias seja esta: para sermos aceitos pelo mundo, vamos nos tornando estrangeiros dentro de nós mesmos.
Por isso, começo a desconfiar de que viver melhor não seja aprender mais, conquistar mais ou acumular novas certezas. Talvez seja justamente o contrário. Talvez seja preciso desaprender a dureza, esquecer algumas feridas sem negar que existiram, abandonar certas expectativas e devolver à alma a liberdade de sentir novamente, com a espontaneidade de quem ainda se permite surpreender pela vida.
Não desejo recuperar ingenuamente quem fui. O tempo passou, e suas marcas também me pertencem. Mas gostaria de reencontrar aquilo que, apesar de tudo, permaneceu intacto em algum lugar de mim. A capacidade de me comover, de confiar sem perder a lucidez, de contemplar sem pressa, de reconhecer beleza onde o mundo já não se demora.
Talvez desaprender seja isso: não apagar a própria história, mas impedir que ela continue escrevendo, sozinha, todos os nossos dias.
E, se ainda houver tempo, quero abrir as caixas. Retirar os embrulhos. Deixar cair as máscaras que já pesam demais. Quero voltar a olhar a vida sem as tintas do desencanto, sem permitir que as inquietações do presente determinem as cores de tudo aquilo que ainda está por vir.
Porque, apesar de tudo, continuo acreditando na capacidade humana de reinventar caminhos, de reencontrar a delicadeza, de fazer nascer possibilidades onde antes só enxergávamos limites. Nem tudo o que o tempo nos retira está definitivamente perdido. Há sentimentos que apenas adormecem, esperando que tenhamos a coragem de despertá-los.
E talvez seja justamente nessa aprendizagem que eu possa encontrar algum alívio para as inquietações que me acompanham: cultivar a lucidez sem sacrificar o encantamento, reconhecer as incertezas sem convertê-las em destino e preservar, em meio ao ruído dos meus dias, a liberdade de continuar acreditando no que há de bom na existência.
Não imagino que isso seja suficiente para dissipar todas as minhas apreensões, tampouco para reconciliar o mundo com aquilo que dele espero. Mas talvez represente uma forma de cura, ainda que parcial: a de compreender que nem tudo o que me inquieta precisa roubar-me a serenidade, e que é possível conservar a consciência das sombras sem renunciar à beleza da luz.
E como quem encontra nas páginas antigas do livro sagrado, não uma imposição, mas um sopro de poesia capaz de atravessar os séculos, desejo fazer minhas estas palavras:
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”
E é isso que desejo: que a memória me devolva não apenas o que vivi, mas também a capacidade de me encantar com aquilo que ainda não vivi.
Mas será que, depois de tanto aprender a ser quem o mundo esperava, ainda saberei desaprender o suficiente para voltar a ser eu?
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Djavan (Açaí)...sugestivo a este momento da minha escrivaninha: